"Tamara é uma mulher trans de 27 anos do Peru. Depois de enfrentar depressão e solidão desde cedo, ela começou a se prostituir aos 18 anos. Embora muitas vezes procure por outro trabalho, ela diz que constantemente é rejeitada por pessoas que pensam que ela tem doenças e é vulgar. 'Às vezes eu penso em deixar a prostituição para trás. Mas, porque estou sozinha, é muito caro', diz Tamara, que muda de apartamento de forma constante." - Danielle Villasana

O projeto de longa duração da fotojornalista Danielle Villasana, A Light Inside, começa com uma coordenada de situação importante, o Peru é um país caracterizado por alto machismo, conservadorismo cultural e religioso: segundo estudo da Universidade Cayetano Heredia, a Igreja Católica e a Guarda Municipal, ou “Serenazgos”, são as instituições mais homofóbicas da nação. O estigma colocado sobre a população trans leva à desistências nas escolas, a abandonos familiares e à falta de oportunidades de emprego; um combo que – não raro – obriga as transexuais a trabalharem como profissionais do sexo, deixando-as mais expostas a violências físicas, sexuais, ao abuso de drogas e a contrair ISTs.  

Hoje, ela trabalha como fotógrafa independente e está sediada em Istambul, na Turquia. À época do início de seu projeto A Light Inside, estava prestes a graduar-se em fotografia pela Universidade do Texas. O cenário de desequilíbrio de poder tão explícito no Peru foi caldo de cultivo para seu projeto, ao invés de fazê-la cair em uma representação vitimizada que a levaria à desesperança e à inércia. O componente político de A Light Inside não falha em fazer as denúncias que precisam ser feitas, mostrando o sofrimento que fala “isso ocorre” ao mesmo tempo que suscita “isso precisa parar de acontecer”. Ela não equipa sua lente com um filtro rosa, mas seu projeto vem de um lugar de “empatia e amor”, como pregado por Nan Goldin. Com sinceridade, Villasana retrata cada uma das suas personagens, como também, seus amantes, seus quartos, suas amigas, às vezes suas mães, como num álbum de família. Goldin, quem podemos destacar como uma referencia para sua obra,  principalmente com seu magnum opus A Balada da Dependência Sexual, empresta à fotógrafa um pouco da estética do “snapshot  (“quando eu faço um ‘snapshot’ eu penso em um álbum de família”), aqui, no entanto, envolto num forte cunho documental e uma atenção estética incomum ao formato do “snapshot”. Villasana também herda a estética de contraste e cores vibrantes da fotógrafa japonesa Momo Okabe, nada estranha à representação das transexuais em seus livros Dildo e Bíblia.

Em agosto de 2015, Light foi escolhido como vencedor do prêmio Inge Morath – realizado pela Inge Morath Foundation em colaboração com a Fundação Magnum -, que premia jovens fotógrafas mulheres de até 30 anos para apoiar a conclusão de seus projetos de longo-prazo. A ideia da fotógrafa era utilizar parte dos fundos recebidos com o prêmio para imprimir suas fotos em larga escala e montar uma exposição de outdoors, trazendo seu projeto para um público de uma realidade mais alargada que o usualmente atingido pelo fotojornalismo ou pela fotografia de arte; nas palavras de Villasana, “uma exposição a céu aberto não discrimina economicamente e atrai as pessoas para olhar fotografias com um tema ao qual elas podem achar pouco familiar”. Além disso, esses outdoors seriam “medidas extraordinárias” para fazer com que o público pare e contemple as imagens. Em 2018, junto com a FotoEvidence, Villasana lançou um projeto de arrecadação coletiva na plataforma Kickstarter para transformar a coletânea em um livro impresso em duas línguas, a sua nativa e a das suas fotografadas, inglês e espanhol. 

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