Instalação da série Lo que Ves es lo que Es no vão do Malba – Fotos: Guyot/Mendoza

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o dia 6 de setembro, ARTE!Brasileiros realizará seu V Seminário Internacional, no Auditório de Ibirapuera, na ocasião da abertura da 33a. Bienal de São Paulo. Nesta edição, será debatido o lugar da ARTE além da ARTE, desde diferentes perspectivas. Vamos abordar questões estéticas e éticas do papel da arte no Século XXI.

A artista chilena Voluspa Jarpa participará da mesa Geopolítica e Arte e apresentará seu trabalho junto a sociólogos e curadores.

Uma das vertentes que tem envolvido o trabalho de inúmeros artistas é a recuperação da memória e a pesquisa de arquivos que possam trazer à luz através das suas obras. Documentos nem sempre são acessíveis e, nos últimos anos, graças à democratização da informação historiadores e pesquisadores, tornaram possível perceber como a história, muitas vezes, tem narrativas falhas.

Documentos e arquivos são temáticas de espaços por todo o mundo. Em Istambul, na Turquia, por exemplo, a instituição cultural Salt Galata foi criada em 2011, com o objetivo de pesquisar e arquivar documentos sobre a cultura, história, política e a arquitetura do império otomano e da Turquia. Parte fundamental do trabalho é focado no levantamento de documentos e depoimentos sobre o extermínio dos armênios em 1915. O material serve de base para exposições, debates e programas de comunicação. No Líbano, o Atlas Group, fundado em 1999 pelo artista Walid Raad, busca localizar, preservar, estudar e produzir material audiovisual, literatura e outros artefatos vinculados à história do país.

De certa forma, grupos como esse seguem o que filósofos e historiadores como Foucault e Agamben defendem: o contemporâneo não existe. Que o acesso real ao presente é uma indagação sobre o passado, e que a chave para a compreensão é o exercício de uma espécie de “arqueologia” a partir das interrogações que o presente projeta no passado. Essa tem sido uma metodologia que inspira especialistas de diferentes áreas do pensamento.

Desde os anos 1960, a América Latina foi assolada por ditaduras cuja violência se diferenciou de outros movimentos políticos ou golpes de estado de camarilhas. Na Argentina, Bolívia, Chile, Uruguai e Brasil houve milhares de presos políticos, desaparecidos e assassinatos.  Tratou-se de implantar um sistema caracterizado pela orgânica e sistemática destruição do livre pensamento, um modelo que parecia ter ruído há muito tempo. A comunicação sobre os fatos era censurada e poucos percebiam o que ocorria em volta. Cinquenta anos depois desse sinistro cenário, nos restam depoimentos e documentos.

A artista chilena Voluspa Jarpa, nascida em 1971 em Rancagua, Chile, desenvolve há anos uma pesquisa baseada no tratamento e uso de arquivos como fonte estética. Na mostra, En Nuestra Pequeña Región de por Acá, no MALBA – Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, realizada em 2016, ela reuniu vários trabalhos criados a partir de documentos do Serviço de Inteligência dos EUA, no período entre 1948 e 1994, centrados na figura de 47 líderes latino-americanos que ocuparam lugares determinantes em seus países e que foram assassinados ou desapareceram em circunstâncias não esclarecidas. Na opinião de Pérez Rubio, diretor artístico do museu até julho deste ano, “na obra de Jarpa o ato de investigação e o ato artístico são um só. A história fala através das peças.”

Jarpa escreve em La forma simbólica del archivo:  “As minhas razões para trabalhar com o arquivo não vêm dos fundamentos da historiografia, tampouco vêm da necessidade de comprovar e contrapor fontes de informação com o intuito de narrar um ponto de vista que conteste o do historiador. As minhas razões  para me aproximar e mergulhar na necessidade de arquivo que tenho vivido  nos últimos 20 anos, vêm do encontro do apagado com o rasurado. Vêm da não história ou do que é mais misterioso, vêm da dimensão de SECRETO como assunto de segurança, da sua histeria e da sua mudez. Minha urgência pelo arquivo se deve a este sintoma, a esta “nuvem flutuante de mal estar” percebida através da minha infância ancorada no Cone Sul da América Latina . Infância que me fez perguntar muitas vezes quanto da minha subjetividade está atravessada, modelada pelos fatos e pela atmostera que envolveu minha infância, por estas ditaduras militares e seus códigos e linguagens das quais fui testemunha em meu próprio país e também nos outros países da região por onde viajei e viví. Do que se tratam os arquivos da não história da Guerra Fria na América Latina? O que revelam deste passado e, principalmente, como isto hoje nos questiona, como nos afeta?

Eu trabalho desde os quinze anos com os arquivos da CIA e outros organismos de inteligência  dos EUA  sobre  países latinoamericanos que foram tornados públicos sobre um período que vai de 1948 até final do séculoXX. Comecei trabalhando com os arquivos que foram publicados sobre o Chile ( no que se denominou Proyecto de Desclasificación Chile) nos anos 1999, 2000 e 2001, quando Augusto Pinochet estava preso em Londres – fato que propiciou uma intenção internacional favorável para tornar visíveis estes arquivos – sendo o Chile o pais que teve o maior volume de arquivos tornados públicos, desclassificados.

Com desclassificados quero dizer que os documentos que os Estados Unidos trouxeram a luz sobre a América Latina, estiveram classificados sob a condição de secreto e esta condição, por sua vez, se subdivide em outras como: confidencial, não distribuir,  proibida ou restrita a sua circulação… Então, conceitualmente, desclassificação quer dizer tirá-los desta condição restritiva e torná-los públicos”.

Este é parte do texto escrito por Voluspa Jarpa por ocasião da abertura da exposição “En nuestra pequeña región de por acá”, no Malba, em Buenos Aires.

 

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