Olivia Arthur, "Anwesh Kumar Sahoo, ex Mr. Gay Índia, fotografado na praia de Juhu. Mumbai. Índia. 2017". Foto: Olivia Arthur | Magnum Photos

“Quando uma loucura súbita, que decerto deveria ser perdoada, se os manes soubessem perdoar, tomou o incauto amante: parou e para a sua Eurídice, já sob a luz, olhou esquecido”, conta Virgílio no mito antigo que serve como metalinguagem para uma das cenas mais memoráveis de Retrato de uma Jovem em Chamas (2019), o recente filme da diretora e roteirista francesa Céline Sciamma.

Na passagem, Héloïse (Adèle Haenel) e Marianne (Noémie Merlant) utilizam de Orfeu e Eurídice como linguagem camuflada para retirar as respectivas barreiras que impediam qualquer manifestação de desejo entre as protagonistas do filme. Uma vez permitido, no entanto, ele tem duração contada, como previa o mito antigo. Sciamma – depois de montar sua canção com um coro de referências visuais à pintura clássica – revela na coda da composição que, assim como Orfeu, Marianne guarda apenas a memória de Héloïse, materializada em um quadro da jovem, em uma noite bucólica, com chamas crescendo pelo seu vestido. Com semelhança simbólica, o cineasta chinês Wong Kar-wai também encerra o romance de Happy Together (1997) com um souvenir, desta vez uma fotografia. 

Céline não é uma novata ao retrato do mundo queer, tendo já explorado questões como identidade de gênero e despertar sexual em Tomboy (2011) e Lírios D’Água (2007), mas com Jovem em Chamas ela vai ao encontro de uma narrativa comum nos produtos culturais: a interrupção do desejo queer e o retorno gradual ao mundo heteronormativo, ou o mascaramento de tal romance até que sua aparência fique fosca o suficiente para conviver nessa sociedade.

O drama é exposto com frequência na arte LGBT+ contemporânea, vide Jonathan de Christine and the Queens ou a capa do segundo álbum de Perfume Genius, cuja arte apresenta nadadores sentados em fileiras e escondidos por uma camada translúcida de tinta azul que deixa em foco dois garotos, os únicos cujos rostos são cobertos por um segundo pedaço de tela.

No campo da fotografia, o trabalho de Pacifico Silano se empenha em entender como trauma e identidade queer se misturam. Silano o faz através da sobreposição de vívidos campos de cor a imagens eróticas e pornografia gay, produzidas entre os protestos de Stonewall em 1969 e o estouro da crise do HIV/AIDS, na década de 1980, nos Estados Unidos. Dessa forma, ele revela um desejo recortado que se intercala com a perda. Assim como na capa de Perfume Genius mencionada acima, Silano obscurece as identidades das personagens e retém detalhes narrativos, com tal, ele protege os modelos que retirou do tempo e questiona porque o afeto e atração sexual queer deveriam ser escondidos; ele joga esta questão ao observador que tem o trabalho de não só construir uma imagem mental do retratado como também da sua história e as razões da sua censura. Susan Sontag, em Questão de Ênfase, escreve que: “Uma das tarefas da fotografia é desvelar a diversidade do mundo e plasmar o nosso sentido dessa diversidade. Não se trata de apresentar ideias. Não é um programa, se não a diversidade e o interesse.”

Discorrendo sobre Silano, a artista Rowan Renee lembra que práticas sexuais com consenso entre dois adultos do mesmo gênero, em ambiente privado, só foram descriminalizadas em nível federal, nos Estados Unidos, em 2003 com o caso Lawrence X Texas, que foi levado à Suprema Corte. Além disso, Renee pontua que trinta e quatro Estados, como o de Nova York, ainda não possuem legislação específica sobre o HIV. Mas possuem precedentes legais para processar pessoas que vivem com o HIV por potencialmente expor outras pessoas segundo os estatutos gerais da lei criminal. Um remanescente do estigma instrumental e simbólico dirigido à comunidade LGBT+ e às pessoas que vivem com HIV/AIDS. Como afirmou Sontag, a “AIDS foi entendida como uma doença não de excesso sexual, mas de perversidade”, desde os primórdios do noticiamento do HIV/AIDS o vírus e a doença foram erroneamente ligados de forma exclusiva à comunidade LGBT+ e principalmente à comunidade gay; a condenação de um tipo específico de desejo com o que era tido como a “punição divina” por ele. Dessa forma, mesmo que a obra de Silano não trate da AIDS como tema principal, ela ainda maneja abordar a temática explorando o impacto da epidemia no contemporâneo.

Relacionar o desejo queer com perversidade não é uma exclusividade estadunidense, no entanto. Na Rússia, o Estado ameaça pais LGBT+ com a retirada de seus filhos por “gay propaganda”. Como relata a escritora Masha Gessen, ao The New Yorker: “Quando meus filhos tinham quinze e doze anos, vivemos um período em que o governo russo ameaçava afastar os filhos de pais queer e, especificamente, ameaçava ir atrás dos meus filhos. Enviei meu filho, que é adotado, para um internato nos Estados Unidos, enquanto o restante de nós se preparava para emigrar. Minha filha biológica estava menos em risco, talvez até sem risco, e, no entanto, a questão de saber que os serviços sociais poderiam vir atrás de mim me deixou em pânico … Capturar membros da família, especialmente crianças, é um instrumento comprovado de terror totalitário”.

Na Índia, a homossexualidade foi descriminalizada em 2018 quando o Supremo Tribunal declarou inconstitucional a Seção 377 do código Penal Indiano – um retrocesso legal da era Vitoriana, mais precisamente 1861 -, relacionada ao sexo consensual entre dois adultos do mesmo gênero. O ativismo e a liberdade de expressão no país também enfrentam uma séria ameaça com a Lei de Prevenção de Atividades Ilegais. Fotografias com nudez, por exemplo, não podem ser mostradas em uma exposição de arte. A fotógrafa Olivia Arthur descobriu isso quando expôs seus registros em Mumbai. Duas fotografias de sua série não foram exibidas no centro financeiro da Índia. A primeira, uma imagem de duas mulheres nuas se beijando, inspirada por um Shunga japonês. O outro, um nu frontal de um jovem segurando uma toalha como se fosse uma capa de super-herói sobre os ombros.

Embora seu projeto tenha crescido para abranger todas as formas de intimidade e sexualidade em Mumbai,  ele começou de fato como uma colaboração com Bharat Sikka para fotografar a comunidade LGBT+ indiana.

O resultado foi uma série de fotografias sinceras e empáticas das idiossincrasias da Índia contemporânea que se desdobra do retratismo de personalidades LGBT+ completamente desarmadas, intercalando-se entre a quietude do privado e o frenesi do ambiente social de um dos países mais populosos do globo, e a fisicalidade desse lugar. Suas imagens funcionam em mais de um nível de percepção, ela não precisa deixar explícito que fala de questões queer ao mostrar as costas andróginas de um retratado. São registros que funcionam com significados imagéticos e não textuais. Neles, o corpo é celebrado, sozinho ou em conjunto, despido ou montado, a sexualidade é suspensa no delicado trabalho minuciosamente técnico de Arthur – suas fotografias foram realizadas utilizando câmeras de grande porte como Linhof e Graflex. “O que é vergonhoso e por quê?”, ela questiona.

Todos os trabalhos citados acima remontam ao começo do texto. A cena pintada por Marianne – que acaba por nomear o filme de Céline Sciamma – é precedida pelo canto de mulheres ao redor de uma fogueira que falam em latim: “Non possum fugere”; em tradução livre “Eu não posso fugir”. Por demonstrações abertas ou silenciosas, a arte LGBT+ contemporânea consegue ir ao encontro desse ditado.

 

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