Rosângel Rennó: DOCUMENTO-MONUMENTO | MONUMENTO-DOCUMENTO
20:00 19 de novembro de 2019 to 18:35 13 de janeiro de 2020
Galeria Vermelho, Rua Minas Gerais, 350 Como chegar
Em sua 7ª individual na Vermelho, Rosângela Rennó apresenta novos trabalhos que investigam a natureza da imagem e o lugar da imagem fotográfica na contemporaneidade a partir de um ponto de vista iconoclasta em torno da perpetuação memorialística de signos, símbolos e ícones.Good Apples | Bad Apples [proposta para um documento-monumento] (2019)No térreo da Vermelho, cerca de 800 pequenas molduras vermelhas, pretas e brancas organizam e classificam a pesquisa de dois anos de Rosângela Rennó em torno de imagens de monumentos erguidos em homenagem a Lenin. As classificações incluem uma busca pela compreensão do destino de cada monumento após a fim da União Soviética. Cada imagem coletada traz em si códigos e anotações feitas pela artista a respeito da origem ou história de cada monumento. São, como coloca Rennó no texto que acompanha a montagem, “observações a partir do ato de colecionar fotos de estátuas de Lenin”.A imagem persistente (2019)Em A imagem persistente, Rennó colecionou objetos que emulam câmeras fotográficas mecânicas sem qualquer funcionalidade ligada ao registro de imagens. São canecas, camisetas, latas de armazenamento, bibelôs, esculturas, e uma série de outros objetos, que trazem ou que se configuram com a forma das câmeras analógicas. Rennó fotografou esses 76 objetos (a coleção continua a crescer) e ampliou as imagens reproduzindo o tamanho real dos objetos. Rennó escreve sobre a transformação do equipamento fotográfico: “se os celulares de hoje são as câmeras de ontem, as câmeras de hoje não precisam mais fotografar nada. Elas servem, porém, como ilustração ou como signo; e estão por todos os lados”. Sobre os objetos colecionados, ela diz: “São como uma febre: mais do que objetos insistentes, são artefatos inocentes cuja finalidade é fazer com que a lembrança da imagem da câmera persista. A sua função está perdida (para sempre?) mas ainda conseguem acalmar a angustia do homem comum”.Hercule & Hippolyte #2 (2019)O díptico de 2019 presta homenagem a dois dos inventores do processo fotográfico, Hercule Florence e Hippolyte Bayard.Rennó conta em texto escrito sobre o trabalho: “Entre 1836 e 1839, Hippolyte Bayard (1801-1887) conseguiu desenvolver um processo fotográfico para a obtenção de ‘desenhos’ sobre papel fotossensível, mas não conseguiu o reconhecimento do governo e nem do público, tendo sido eclipsado pelo invento de Louis Daguerre. [...] O frances radicado no Brasil, Antoine Hercule Romuald Florence (1804-1879), conseguiu imprimir ‘desenhos’, através de uma camera obscura, sobre papel embebido em nitrato de prata em 1833. Um ano depois, ele nomeou o próprio experimento de ‘photographie’, alguns anos antes de John Herschel cunhar de maneira independente o termo ‘photography’ e ter sido reconhecido por isso. Por estar muito longe da Europa, o invento de Hercule Florence foi ignorado”.Rennó fotografou os túmulos de ambos inventores com câmeras mecânicas, ampliou as fotografias e selou as câmeras que as registraram. Ela apresenta agora, imagens e câmeras juntas, e diz sobre o processo analógico: “Hoje, essa fotografia e sua parafernália mecânica e química parecem ter sido quase definitivamente enterradas, vencidas pela indústria que decretou a morte da imagem analógica em detrimento da digital. Algumas questões ontológicas relacionadas com o caráter indicial das imagens sobre papel ou filme parecem ter sido engavetadas, como ossos são guardados em caixas ou recobertos por uma lápide.”Killing CHE (2019)Na obra, Rosângela Rennó organiza uma coleção de maços de cigarro da marca Che e um isqueiro com a imagem e nome do revolucionário marxista Ernesto Guevara (1928 – 1967). Todos os objetos carregam em sua identidade gráfica a icônica imagem de Guevara registrada por Alberto Diaz “Korda,” em 5 de março de 1960, intitulada “Guerrilheiro Heroico”. A imagem estilizada de Che foi utilizada pelo designer Jim Fitzpatrick em um cartaz que teve 2 milhões de cópias vendidas em 6 meses. Rennó lança a questão: “Teria o “Che”, sendo inimigo implacável do capitalismo, feito alguma objeção ao tratamento e à monetização de sua imagem?”E sobre o uso da imagem pela marca de cigarros escreve: “: por que a imagem de um líder revolucionário acabaria ilustrando um maço de cigarros, vendido em várias partes do mundo? O proveito da indústria pode representar um dano, um esvaziamento ainda maior da imagem mas até mesmo a indústria sofre com certas determinações do mercado. Então, nós, consumidores, assistimos a ações perversas, alheias tanto ao universo ao qual aquela imagem pertencia, quanto à própria indústria que se beneficiou dela, durante muitos anos. Quando algumas sociedades decidem que certo produto é de tal maneira danoso ao ser humano que justifica a inserção de mensagens explícitas, visuais e textuais, a imagem da marca acaba sendo reduzida, eclipsada, chegando até ao seu completo desaparecimento”.Exercícios de 3D (transparência) #4 (2019)O trabalho utiliza dispositivo ótico de visualização de fotografia três dimensões, criado em 1840, substituindo as imagens normalmente utilizadas na visualização por placas com textos do projeto Arquivo Universal. Iniciado por Rennó em 1992, o Arquivo Universal compila textos jornalísticos sobre imagens fotográficas. Em Exercício 3D (transparência) os textos do Arquivo Universal aplicados a tecnologia 3D, causam desconforto, não apenas pelo esforço em conseguir ‘ver’ apenas um texto com palavras que parecem flutuar diante dos olhos, mas, também convertê-los em imagens, depois da leitura do mesmo. Algumas fotografias são facilmente reconhecíveis ou decifráveis a partir dos textos. Outras, se desconhecidas, vão solicitar ao leitor o exercício da construção mental ou da invenção.Aucune Bête au Monde (2019)Aucune Bête au Monde é um livro editado em 1959, composto por textos do então Coronel francês Marcel Bigeard e por fotos do Sargento-Chefe Marc Flament, sobre a longa guerra pela independência da Argélia (1954-1962). Rennó interviu sobre o livro com tinta cinza, apagando das imagens qualquer militar que tenha sido retratado. A artista também eliminou com recortes, os textos que identificavam o local onde as imagens foram capturadas. Rennó escreve sobre os apagamentos: “Os apagamentos nas imagens e nas próprias páginas pretendem sugerir um aspecto de universalidade na documentação de uma guerra específica”.

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