Miguel Bakun: uma grandeza precária
13:00 26 de outubro de 2019 to 16:00 14 de dezembro de 2019
A Galeria Simões de Assis traz em sua sede paulistana um recorte da produção de Miguel Bakun. Esta exposição, assim como as últimas do pintor, especialmente a realizada no Instituto Tomie Ohtake no primeiro semestre de 2019, cumpre a tarefa de não só resgatar uma obra excepcional como de conferir a Bakun o reconhecimento merecido, ainda que tardiamente e muito depois de sua morte. A mostra reúne cerca de 40 pinturas, entre as quais as suas paisagens praianas que não fizeram parte da última mostra em São Paulo. Assim como Pancettti, Bakun foi marinheiro no Rio de Janeiro até 1930, quando volta para Curitiba. Para Ronaldo Brito, em um dos textos feitos especialmente para exposição, as extraordinárias marinhas ostentam um pronunciado acento mineral enquanto os céus não exalam nada de aéreo, são quase metálicos. “Trata-se sempre, porém, da mesma ânsia tátil que desobedece à vontade a regra acadêmica da textura, a correta imitação visual da sensação tátil. A matéria da pintura é o espírito do pintor”, escreve o crítico. Já o texto de Paulo Pasta ressalta como as paisagens do artista são quase sempre cenas de seu lugar de origem, tornadas interessantes pela sua capacidade em apreender o que elas têm de distantes e perdidas; ambientes ermos e desamparados que sempre serviram de motor à poesia de pintores e muitas vezes respondem pelo melhor de suas produções. “...a forma com que Bakun construiu e revelou esses sítios à margem, essas paisagens olhadas de maneira comum, acentua esse estado de espírito da, e na, paisagem, dotando-as de uma grandeza humilde”, conclui. Ronaldo Brito sugere que, de alguma maneira, por meios e modos difusos, Miguel Bakun fez-se contemporâneo de Cézanne e Van Gogh. “Ele não passava os olhos sobre as reproduções de suas telas, a essa altura, já emblemáticas; à sua medida, ele as introjetava, examinava a fundo, até as últimas partículas de seu ser”. Bakun, afirma ainda Pasta, é um dos artistas que melhor souberam dar potência ao esquecimento e equilibrar verdes, azuis e amarelos, um pouco travosos e sem brilho, cores quase desbotadas, com uma noção muito moderna do não acabado. “As melhores, para mim, parecem fundos de quintal, um lugar comumente caseiro, reservado, escondido e Bakun é um dos melhores intérpretes desse espaço incerto e paradoxalmente cheio de memórias”. Segundo Pasta ainda, essa materialidade precária assumiria e ajudaria a compor a forma magistral de sua lírica.  “Forma e conteúdo dando as mãos, identificando-se, para formarem o sentido pleno dessa obra tão peculiar”, completa.

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