Cidade Perdida
14:00 15 de junho de 2019 to 18:00 1 de setembro de 2019
Museu da República | Palácio do Catete, R. do Catete, 153 - Catete, Rio de Janeiro - RJ, 22220-000 Como chegar

A relação entre tráfico de escravizados, genealogia familiar e o desenvolvimento urbano carioca é o ponto de partida da exposição "Cidade Perdida", do artista Pedro Meyer, que será inaugurada no dia 15 de junho, na Galeria do Lago (Museu da República), com curadoria de Isabel Sanson Portella. A mostra é composta por cerca de 20 obras, entre pinturas e desenhos que traçam um paralelo entre o campo do Valongo, local de concentração, trânsito e extermínio de escravos negros no Rio de Janeiro, e Treblinka, quarto campo de extermínio nazista. Estes trabalhos foram desenvolvidos a partir de uma pesquisa iniciada na Gamboa, no Rio de Janeiro, onde o artista trabalhou durante seis meses.

“Pedro Meyer explora a abstração dos mapas e os enigmas que eles sugerem. As dúvidas suscitadas geram possibilidades de leituras diversas que vão intermediar temas violentos e sua relação com o espectador. Do genocídio à escravidão, da engenharia da morte em massa ao sagrado, do distante e passado ao próximo e presente, todas as dores e lutas são apresentadas numa visão estrutural, construída. Para descobrir a ‘cidade perdida’ é preciso o distanciamento e o olhar intenso de quem procura a verdade”,  afirma Isabel Sanson Portella.

Uma das referências para o desenvolvimento das obras são mapas. As escolhas dos locais representados nos mapas são determinadas por levantamentos históricos e esses espaços foram ocupados por antepassados. Os mapas procuram ser imagens técnicas, precisas na apresentação geográfica, mas a cartografia atravessa um desenvolvimento que modifica sua configuração ao longo do tempo. Também existem cartografias imaginárias, as tentativas de reconstrução gráfica de arquiteturas perdidas, soterradas e apagadas. Para o artista, essas plantas são apenas hipóteses, conjecturas sobre um passado imaginado.

"Os mapas são ainda uma abstração formal. Desenhar um mapa é frequentemente relacionar as grades das malhas urbanas com a natureza disforme - tipologias abstratas e naturais reunidas em uma visão planar superior, que comprime e sintetiza. Na superfície do mapa verifico o jogo entre organismo e projeto, ocupação e ordem", analisa Pedro Meyer.

Será que Grandjean formulou projetos urbanos para o Rio? Será que a expansão para oeste foi orientada por um plano neoclassico? Como as elites locais influenciaram a formulação da cidade? Essas perguntas também são levantadas pelo artista em obras que retratam figuras como José Justino Pereira de Faria - armador do tráfico negreiro que operava na foz do Rio Congo -, Felicidade Perpétua de Jesus - herdeira de José Justino e proprietária de parte significativa da Gávea -, Antonio Francisco de Faria - filho de Felicidade Perpétua, artista e pintor - e Augusto Muller - aluno de Debret, autor do retrato mais conhecido de Grandjean.

"Os brasileiros se aproximaram efetivamente do clássico na violência, não na beleza das obras artísticas. O Rio de Janeiro abrigou uma quantidade de escravizados que só encontramos paralelo na Roma Antiga. Abordo a arte como método histórico paradoxal, em imagens que apresentam tempos históricos distintos em associações fantásticas. Porém, as imagens no seu rigor ilógico são precisas em delinear marcas e denunciam feridas efetivas na distopia atual, especulando sobre manifestações trans-históricas", completa Meyer.

Para o artista, a pintura e o desenho são um jogo aberto - espaços nos quais é possível conversar com a tradição, mas também reinventar o passado e a possibilidade de existência presente. Os signos da arte criam vínculos temporais. A história social pode ser desdobrada com o encontro de outras narrativas, artísticas, pessoais e simbólicas. A semelhança gráfica entre o Valongo e Treblinka, retratados por Meyer, por exemplo, é uma dobra no tempo, a denúncia coincidente de genocídios diferentes. Para ele, não existem coincidências na investigação de um crime, apenas indícios.

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