Anri Sala, ‘Long Sorrow’, 2005. Super 16 MM transferido para vídeo HD em canal único. Som estéreo, Cor / 12’57”

 

A música atrai outros campos da arte e os envolve pela percepção de sons escritos, sonoridade, lugares de afeto e territórios. Mesmo reconhecendo conceitos díspares no conjunto da obra do albanês Anri Sala e do cubano Carlos Garaicoa, chama a atenção ambos se apropriarem da música como espaço simbólico de território, criado nas relações de ocupação e sentimento de pertencimento, em suas mostras em São Paulo: O Momento Presente, de Anri Sala, no Instituto Moreira Sales, e Ser Urbano, de Carlos Garaicoa, no Espaço Cultural Porto Seguro. Ambos tocam poeticamente no cotidiano, colocam a música na pele das performances, às vezes mergulham em zonas de penumbra e, em outras, emergem sob o facho de luz. Dois migrantes de países comunistas. Anri Sala nasceu em Tirana e escolheu Berlim para morar. Garaicoa é de Havana, onde mantém um ateliê, além de outro em Madri. Cada um, a seu modo, reflete sobre o estar no mundo como observadores de questões histórico-político-culturais.
Ser Urbano, mostra composta por sete obras, entre instalações, vídeos, maquetes e desenhos, tem a curadoria de Rodolfo de Athayde e fecha um ciclo ao concluir a instalação Partitura (2017). Desenvolvida ao longo de dez anos, tem a participação de mais de 70 músicos de rua de Madri e Bilbao. O encontro deles se materializa na instalação composta por suportes para partituras. Em cada um, estão presos tablets e fones de ouvido, que reproduzem vídeos desses artistas. As partituras, por sua vez, exibem desenhos livres, criados por Garaicoa, inspirados nas melodias desses músicos. Cada suporte representa um deles e seus diferentes instrumentos, que podem ser de sopro, cordas, percussão ou metal. Tudo é distribuído pelo espaço, como em uma orquestra sinfônica. No centro da instalação, ocupa o lugar do regente um pequeno palco com três telas com imagens dos músicos atuando nos cantos das cidades, além de caixas de som. Como afirmou o geógrafo Milton Santos, a arte de rua, naturalmente urbana e pública, traz forte carga política por ocupar espaços fora dos campos institucionalizados da arte e por tocar as realidades sociais de perto.

Carlos Garaicoa, ‘Partituras’, 2017, instalação – Som, animação, pedestais, tablets, papel, tinha.

Navegando em sentido oposto, em Momento Presente, Anri Sala leva o público a “flutuar” com o vídeo The Clash (2010), ao dar sopro e oxigenação na relação música/indivíduo/territorialidade. Se apropria do sucesso Should I Stay or Should I Go, da banda punk inglesa The Clash e o espalha pela cidade, com explícita dimensão política e poética. O texto da música se desenvolve em um campo de fortes questões e frágeis respostas, divaga entre a dúvida de ficar ou partir e é executado em diferentes instrumentos como realejo, caixa de música e piano. No vídeo, um homem carrega uma caixa de música enquanto um casal empurra, com dificuldade, um realejo que toca lentamente a música homônima da obra. Eles caminham em direção à Salle de Fêtes, no Grand Parc de Bordeaux, ex-catedral francesa do rock punk. Sala relaciona o território e a música a partir da memória do lugar e, como define a curadora da exposição, Heloisa Espada, o casal que empurra o realejo pode ter frequentado a Salle des Fêtes ou isso pode apenas simbolizar um fragmento de um sonho acordado. No trabalho de Anri Sala, a banalização do dia a dia se transforma por meio de práticas libertárias no espaço público, no melhor espírito da Internacional Situacionista, movimento surgido em 1957, que defendia, entre outras coisas, uma vida lúdica e de liberdade permanentes.
A instalação principal de Momento Presente parece ter encontrado na música sua forma ideal de representar e experimentar a transitoriedade. A grande sala mantém dois telões opostos que dialogam, tendo como fio condutor Noite Transfigurada, a última peça romântica do compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951), que em seguida rompe com a tradição tonal e cria a técnica do dodecafonismo. A videoinstalação tem curta duração, com sete minutos iniciais sonorizados e os oito restantes focados no ensaio da orquestra de câmara, nos quais os gestos repetitivos dos violinistas, com seus braços movendo-se como pistões, tomam conta do espaço. O teto central exibe tambores de uma bateria desmontada fixados de cabeça para baixo e o barulho cadenciado da repetição das notas alude à alienação tecnológica do período pós-fordista.
Em outra sala, em meio à projeção do vídeo Long Sorrow, na primeira semana da exposição, o público era surpreendido com uma performance ao vivo do saxofonista Andre Vida. Sua música, interpretada in loco, dialogava com as imagens do vídeo no qual outro músico, Jemeel Moondoc, executava com saxofone um jazz primoroso, pendurado do lado de fora do 18º andar de um edifício do conjunto habitacional, conhecido como Langer Jammer, em inglês Long Sorrow (Sofrimento Longo).
A linguagem sempre interessou Garaicoa, especialmente a de espaços públicos. As superfícies das calçadas de Havana nas décadas de 30 e 40 estampavam, em frente das lojas, os nomes dos estabelecimentos e alguns “dizeres”. Algumas estão registradas em fotos e, a partir delas, Garaicoa transforma fragmentos de calçada em tapetes, criando uma camada gráfica que aborda o tempo e a temporalidade dos espaços urbanos. Segundo o curador Rodolfo Athayde, o artista coloca luz em fragmentos poetizados, como “fim do silêncio” ou “frustração de sonhos”.
A questão da linguagem também está presente na mostra de Sala. Segundo Foucault, o homem compôs sua própria figura nos interstícios de uma linguagem em fragmentos. Em Làk-kat, Sala filma três garotos em ambiente escuro onde um adulto, em off, os faz repetir palavras em uólofe, idioma original do Senegal. A princípio, os vocábulos se referem aos conceitos de escuridão e claridade. Em seguida, descrevem tons de pele e maneiras variadas de se referir a estrangeiros. Três telas mostram, simultaneamente, traduções do uólofe para o português falado no Brasil, em Portugal e em Angola.

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